quarta-feira, 11 de abril de 2007

Karma

Há um tempo, atrás quando eu ainda trabalhava no condomínio e tinha uma carga enorme de serviços, foi cogitada a hipótese de eu ganhar um ajudante, algo como um técnico em edificações ou estagiário de algum curso de construção civil. Uma pessoa capaz de exercer os trabalhos rotineiros enquanto eu poderia me dedicar aos trabalhos burocráticos de analisar projetos, estudar novos orçamentos, planos de obras e afins...

Eis que uma "boa alma" da diretoria (eram 12 os chefes para a única índia: eu), resolve que deveria contratar alguém tão ou mais qualificado que eu... Para, simplesmente poder me descartar quando a pessoa estivesse por dentro de tudo o que rolava naquela Torre de Babel de 1200 lotes.

Até que um dia, durante o processo de seleção que era feito na minha sala, pois eu poderia dar palpites na contratação do “meu ajudante”, me deparo com uma bela garota, já engenheira formada, com um puta currículo, igualável ao meu, no sentido de conhecimento de campo, de obras e de lidar com peãozada e público, quase que sendo contratada...

Como por um certo meio eu já sabia do babado, digo, maldade à vista, e já que era para eu ficar desempregada, faltando apenas uns quatro meses para concluir a faculdade, cheguei no meu diretor (apesar de ter 12, um era especificamente responsável pela área de manutenção e obras) e disse: “a garota é a pessoa ideal, para me substituir, e não ajudar. Logo, se a contratarem hoje, eu saio amanhã, pois para passar minha experiência, não no sentido conhecimento técnico, mas do residencial e ser descartada, eu preferia sair antes e ver o circo pegar fogo. Vocês não querem o seis por meia dúzia? Então que seja logo!”.

Claro que todos ficaram com medo de perder a eficiente Carla, aquela que sabe já de cor todos os processos, exigências de órgãos públicos e concessionárias de serviços, nomes de moradores, quadras, ruas e afins do residencial, deixaram para lá.

Não foi nada pessoal, foi apenas autodefesa. Sempre achei que a menina tinha potencial, mas o que certo diretor queria fazer comigo era cachorrada demais...

Continuei trabalhando por lá, sem ajudante, servindo de apoio, inclusive em férias no Nordeste, até depois de formada. Quando no começo deste ano, recebi uma proposta de emprego na Prefeitura de Jandira (irrecusável, não no sentido financeiro, mas na experiência de participar de todo o processo de construção de casas populares, desde a busca de financiamento com a Caixa Econômica Federal, passando por mutirões, até a entrega das chaves), e dei tchau pra eles...

Saí amigavelmente, e ainda presto serviços lá de consultoria e análise de projetos remunerados por fora...

Todos felizes, até que hoje, recebi a notícia de que seria contratada (para uma vaga disponível no meu atual emprego) uma profissional, assim e assado, que começará amanhã. E adivinhem quem é a pessoa? A tal engenheira de ótimo potencial!

Não, não será concorrente, apesar de ela já estar escalada para realizar um projeto que a princípio seria meu, por ser nova e pegar algo do início, enquanto continuarei em outros, mais urgentes e em andamento.

Fico pensando na ironia da vida, e nos desatinos do destino, em qual seria a finalidade de querer tanto me juntar à ela. Seria uma escolha de outras vidas, seria dívidas para pagar, almas afins se reencontrando? Não sei. Sei apenas que a situação é totalmente diferente, favorável para todos os lados... E, eu fico feliz em finalmente dividir espaço com uma outra moça que eu já sabia ser tão competente, quanto eu sei que sou, neste universo masculino da construção civil.

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